segunda-feira, 16 de abril de 2018

O Grande Sertão Veredas, de João Guimarães Rosa


Olá, leitor!
Considerada uma das mais importantes obras da literatura brasileira, O Grande Sertão: Veredas, do grandioso João Guimarães Rosa, publicada em 1956, é um romance aclamado devido a sua originalidade de sua história e pela utilização de uma linguagem característica do sertão, uma obra repleta de neologismos e passagens poéticas.
São mais de 600 páginas de experimentalismo linguístico através de uma narrativa marcante sobre as dificuldades, medos, anseios e amores sobre a vida das pessoas que moram no sertão, sendo essas características personalizadas no personagem Riobaldo.
Um dos motivos que fazem esse livro ser tão importante para a literatura brasileira é a fusão entre a primeira e a segunda fase do modernismo presente nesta obra, ou seja, o uso da experimentação acerca da linguagem – característica da primeira fase modernista – e a utilização do regionalismo para narrar a história – característica da segunda fase modernista –, criando assim uma obra tão inovadora.
Viver é muito perigoso… Querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, por principiar. Esses homens! Todos puxavam o mundo para si, para o consertar consertado. Mas cada um só vê e entende as coisas dum seu modo.”

Resumo

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A primeira parte da obra apresenta-se numa narrativa caótica e desconexa, sendo narrada pelo personagem Riobaldo, que discorre sobre diversas questões filosóficas acerca da vida, suas inquietações, suas dificuldades e seus medos, abordando questões sobre o bem e o mal e sobre Deus e o Diabo.
A história verdadeira em si começa quando o personagem Quelemén de Góis aparece para ajudá-lo a expressar suas ideias, sendo assim, Riobaldo começa a narrar os fatos numa ordem cronológica, passando a falar sobre sua mãe e sobre como conheceu seu amigo de infância Reinaldo, um garoto que se dizia diferentes dos demais.
Em seguida, ele narra a morte da sua mãe e conta que foi levado para viver na fazenda São Gregório, do seu padrinho Selorico Mendes, sendo assim que ele passa a conhecer o Joca Ramiro, chefe dos jagunços daquela época. Seu padrinho garante seus estudos e o coloca para estudar, logo, Riobaldo passa a ensinar Zé Bebelo, um fazendeiro da região que não teve oportunidade de estudar.
Tempos depois, Zé Bebelo, monta um bando para por fim nos jagunços da região, que viviam atormentando as pessoas que viviam por ali, e convida Riobaldo para fazer parte desse bando, que aceita de imediato.
A partir daí começa o primeiro conflito – guerra – da obra, onde o bando de Zé Bebelo e Riobaldo entra em conflito com o bando de jagunços liderado por Hermógenes e os soldados do governo ao mesmo tempo, porém, quando a batalha se acirra, Hermógenes e seu bando fogem do confronto. Neste ponto, Riobaldo decide abandonar o bando de Zé Bebelo e reencontra Reinaldo, seu amigo de infância, que faz parte do bando de Joca Ramiro, sendo assim, ele decide entrar para o bando deles.
Nesta parte do livro, a amizade entre Riobaldo e Reinaldo fica muito mais forte, eles acabam se aproximando mais ainda e Reinaldo, por sua vez, acaba confiando a Riobaldo o segredo de que esse nome é secreto em meio aos jagunços, ali ele era Diadorim, então, Riobaldo passou a chamá-lo de Reinaldo somente quando eles estavam a sós.
Logo após a esses acontecimentos, acontece a batalha entre o bando de Zé Bebelo e de Joca Ramiro, sendo que Zé Bebelo acaba sendo capturado, sendo julgado por um tribunal de todos os líderes dos jagunços, onde Joca Ramiro é o líder supremo, mais importante de todos.
Hermógenes e Ricardão, outros dois líderes, são a favor da pena de morte, contudo, Joca Ramiro decide-se por exilá-lo em Goiás, dizendo para que Zé Bebelo não volte mais até segunda ordem. Após esse acontecimento, Riobaldo e Reinaldo decidem-se por mudar de bando, passando então a integrarem ao bando de Titão Passos, que também lutou ao lado de Hermógenes.
Assim, um grande período de tempo passa sem muitos conflitos e também com muitas bonanças naquela região do sertão, até que um jagunço chamado Gavião-Cujo vai informar ao bando de Titão Passos que Joca Ramiro foi traído e morto por Hermógenes e Ricardão, que passam a partir daí a serem conhecidos como “Os Judas”.
Neste mesmo ponto da obra, é quando Riobaldo passa a ter um caso com a prostituta Nhorinhá e, também, com a Otacília, pela qual ele se apaixona e passa a vê-la mais vezes, o que gera um conflito com Diadorim, que fica com raiva e chega até mesmo a empunhar um punhal durante uma discussão com o amigo.
Logo após esse desentendimento entre os dois amigos, o bando de jagunços passa a se reunir para combater Os Judas, iniciando-se assim a segunda grande guerra da narrativa, sendo lideradas por duas frentes: a de Hermógenes e Ricardão, traidores e assassinos de Joca Ramiro; e a de Zé Bebelo, que retorna tomando o posto de líder para vingar a morte do seu grande salvador.
Ao decorrer dos conflitos, os soldados do governo chegam mais uma vez para interferir na batalha, fazendo com que todos os jagunços tenham que se unir para combatê-los, deixando seus conflitos pessoais de lado. Contudo, o bando de Zé Bebelo foge sorrateiramente da batalha deixando apenas Hermógenes e seu bando lutando contra os soldados.
Neste momento, Riobaldo entrega a pedra de topázio, um dos símbolos de compromisso de casamento, para Diadorim, simbolizando uma possível união entre os dois, porém, Diadorim por sua vez, não aceita a pedra e diz para Riobaldo esperar pelo fim das batalhas e da guerra que eles conversariam, Riobaldo não entende muito bem e fica um pouco frustrado.
Quando o bando de Zé Bebelo, ainda em fuga da batalha violenta com os soldados, chega às Veredas-Mortas, é quando em certo momento Riobaldo faz um pacto com o Diabo para vencer o bando de Hermógenes e assume a liderança do bando de jagunços devido a deserção de Zé Bebelo, após perder a disputa da liderança para Riobaldo.
Após esse suposto pacto, Riobaldo passa a ser chamado de Urutu-Branco, e segue em caçada ao bando de Hermógenes mais uma vez, contudo, antes disso, devido a recusa de Diadorim e o medo de não saber como terminará o conflito, Riobaldo manda um dos seus jagunços entregar a pedra de topázio à Otacília como símbolo de compromisso de casamento entre os dois.
Portanto, finalmente, sob a liderança de Riobaldo ou Urutu-Branco, o bando de jagunços seguem o bando de Hermógenes até a fazendo dele na Bahia, conseguindo aprisionar a mulher de Hermógenes e tomando suas posses, porém, Riobaldo não encontra Hermógenes e decide voltar para Minas Gerais.
No meio do caminho, Riobaldo encontra com o bando de Ricardão e outra grande batalha acontece, sendo que Ricardão acaba sendo morto por Riobaldo, assim como todo o seu bando. Em seguida, após mais um tempo de caminhada rumo à sua casa, Riobaldo e seu bando encontram o bando de jagunços liderados por Hermógenes e, mais uma vez, outra grande batalha acontece.
Esse é o confronto decisivo e final da obra, encurralados num lugar conhecido como Paredão, não havia escapatória e uma batalha sangrenta acontece. Por fim, Diadorim enfrenta Hermógenes num combate singular, corpo a corpo, e ambos acabam morrendo.
Após isso, o bando de Riobaldo ganha o confronto e é aí que, ao chorar a morte do amigo e não permitir que mais ninguém o toque além dele mesmo, é que Robaldo descobre que Diadorim é, na verdade, Maria Deodorina da Fé Bittancourt Marins, filha de Joca Ramira, antigo líder supremo dos jagunços.
Mas, na ocasião, me lembrei dum conselho de Zé Bebelo, na Nhanva, um dia me tinha dado. Que era: que a gente carece de fingir às vezes que raiva tem, mas raiva mesma nunca se deve de tolerar de ter. Porque, quando se curte raiva de alguém, é a mesma coisa que se autorizar que essa própria pessoa passe durante o tempo governando a ideia e o sentir da gente.

Estrutura da obra

O Grande Sertão: Veredas é uma obra dividia em 2 volumes, mas que não possui divisão entre capítulo durante a narrativa, chegando a ter mais de 600 páginas.
O livro é marcado pela sua linguagem, marcada pela oralidade regionalista, ou seja, escrita com palavras e frases características do sertão, além de diversas passagens poéticas com diversos neologismos, brasileirismos e arcaísmos, dispostos numa narrativa não-linear, não seguindo uma ordem cronológica exata.
Narrado em primeira pessoa, ou seja, com narrador personagem no tempo psicológico (autodiegético), a narrativa fala sobre os medos, dificuldades e reflexões acerca da vida humana, permeados de questões místicas e supersticiosidade, além de questões sociais sendo motivo de disputas e uma grande história de amor platônico, impossível.

Narrador

A narrativa dessa obra pode ser um pouco confusa, devido às divagações iniciais de Riobaldo, contudo, essas características de alongamento e confusão labiríntica, pode ser interpretada de duas formas: a primeira, como a simulação do próprio espaço físico onde se passa a história do livro, o sertão, colocando-o como um labirinto místico; e a segunda como uma metáfora para a própria vida, que também é caracterizada como um labirinto místico.
A narração de Riobaldo é feita para um interlocutor que em momento alguma ganha voz ou se manifesta, portanto, não sabemos quem é essa pessoa, apenas podemos caracterizá-lo com os próprios comentários e observações do narrador personagem sobre ele.

Tempo

O tempo dessa obra pode parecer ser mais confuso ainda do que a narrativa em si para a maioria das pessoas, por se tratar de tempo psicológico, uma narrativa de memórias em grande parte do livro, contudo, podemos caracterizá-lo de forma mais simples, se nos atentarmos que ele está contanto para alguém os fatos no tempo presente.
A estrutura desse romance permite que o narrador faça digressões ao decorrer da história, ou seja, ele pode interromper alguma coisa que estava narrando e voltar para o passado, depois, pode divagar sobre suas angustias e o futuro e, em seguida, voltar a contar o fato que havia interrompido páginas atrás.
Uma maneira fácil de dividir essa obra é usando os recursos do resumo, que não foi feito de acordo como segue a narrativa para não dificultar o entendimento, ou seja, apontando os principais fatos sobre a narrativa. Por exemplo:
  • Primeira parte: introdução do personagem principal e dos principais temas presentes na obra.
  • Segunda parte: narrativa da segunda grande guerra dos jagunços, o que seria o meio do livro se ele seguisse uma ordem cronológica exata.
  • Terceira parte: narrativa da juventude de Riobaldo e todos os acontecimentos importantes dessa época, desde a morte de sua mãe até ele conhecer Diadorim que, na época, era Reinaldo.
  • Quarta parte: narrativa do conflito entre Riobaldo e Zé Bebelo, onde ele assume a chefia do bando e faz o pacto com o Diabo.
  • Quinta parte: a narrativa retorna pata o início e conta o desfecho final da segunda grande guerra, onde Diadorim mata Hermógenes e morre ao mesmo tempo e Riobaldo descobre que seu grande amigo e amor da sua vida era na verdade uma mulher. Em seguida, o personagem descreve como se casou com Otacília e herdou as terras do padrinho, levando uma vida pacata de fazendeiro.

Espaço

O espaço principal da obra é o sertão, sendo descrito os sertões de Goiás, de Minas gerais e partes da Bahia.
O espaço da obra é marcante porque causa muita confusão devido a descrições de lugares reais com nomes fictícios e outros com nomes verdadeiros, o que dá a entender que o espaço dá obra sempre retorne para os mesmos lugares, numa espécie de labirinto territorial sertanejo.
Entretanto, isso e feito de forma proposital para que seja feita uma metáfora entre o enredo, a história, o espaço e o tempo com a vida, chamada muitas vezes de travessia, fazendo assim alusão ou uma analogia a própria existência, ou seja, que a vida é uma travessia labiríntica.

Principais personagens

Os principais personagens de O Grande Sertão: Veredas, são:

Riobaldo

Personagem narrador que conta sua própria vida desde a sua infância e juventude, contudo, de forma confusa e não-linear. Um homem corajoso e que teve a oportunidade de estudar, tornando-se até professor de Zé Bebelo, que o inseri no mundo dos jagunços.
A personagem era conhecida como Riobaldo-Tatarana, apelido dado devido a sua boa pontaria e que significa lagarta de fogo na linguagem do sertão, porém, após o pacto com o Diabo, ele passa a ser conhecido como Urutu-Branco. A caracterização desse personagem se dá na representação do homem sertanejo que convive com as mazelas e vive em constante dúvidas e medos, mas sem nunca perder as esperanças ou a vontade de lutar.

Diadorim

Personagem de grande importância na história, sem melhor amigo de Riobaldo e seu amor platônico impossível, pois é tida como homem até o final da narrativa, quando se descobre que na verdade Diadorim era uma mulher, filha de Joca Ramiro.
Essa personagem introduz diversos sentimentos contraditórios em Riobaldo, que não sabia porquê, mas a amava, porém, sabia que uma relação desse tipo nunca seria aceito em meio aos jagunços. A caracterização dessa personagem se dá na representação da força da mulher sertaneja e no desejo de quebrar paradigmas naquela época, sendo que mulheres não eram aceitas no bando de jagunços como guerreiras.

Zé Bebelo

Personagem complexo e intrigante na obra, possuindo uma boa oratória, consegue convencer as pessoas a fazerem aquilo que quer, como também, possuía aspirações políticas que nunca foram alcançadas.  Gabava-se por nunca ter perdido a chefia dos jagunços pra ninguém, mas quando perde a briga com Riobaldo para a chefia do bando, deserta e decidi ir embora. Riobaldo, apesar da briga e dos conflitos com essa personagem, sente um grande apresso por Zé Bebelo.

Joca Ramiro

Personagem caracterizado como grande chefe político e guerreiro daquelas bandas do sertão, sendo tido como o líder de grandes batalhas, bem como logo a primeira grande guerra do romance e sendo o responsável pela segunda grande guerra presenta na obra, devido ao seu assassinato.
A caracterização dessa personagem se dá na representação do grande guerreiro, líder nato, sábio, justo e corajoso, com direto a boas passagens com falas filosóficas poéticas e reflexivas, tomando assim a forma de um homem cheio de virtudes, uma personificação da bondade.

Hermógenes

Personagem odiado profundamente pelo narrador, pois, logo no começo quando estão lutando ao mesmo lado contra os soldados, Riobaldo deixa evidente que o detesta porque essa personagem gosta de matar por matar, sendo caracterizado diversas vezes pelo narrador de Cão e Demo.
Após a traição e o assassinato de Joca Ramiro, esse ódio de Riobaldo por Hermógenes cresce ainda mais. A caracterização dessa personagem se dá na representação do mal, de pessoas más que fazem o mal simplesmente por prazer, porque podem e porque gostam de fazê-lo.

Análise

A obra O Grande Sertão: Veredas impressiona e é considerada uma das mais importantes narrativas da literatura brasileira devido a diversos aspectos diferentes: a linguagem original, repleta de neologismos e experimentações; a imersão regional do espaço onde se passa a obra, chegando a dar ares de personificação do próprio sertão; os diversos personagens marcantes e complexos, tão humanos e sensíveis, porém, ao mesmo tempo brutos e implacáveis devido as dificuldades da vida; e a forma mística que os fatos são narrados, retratando um sertão cheio de brasilidade e supersticiosidade de uma forma sutil e poética de uma região que, apesar da seca e dos problemas, pode ser rica e cheia de nuances sublimes.
Além disso, a importância dessa obra se dá em mais outros dois fatores que devem ser exaltados. O primeiro, a sua importância para a terceira fase do modernismo no Brasil, onde o autor pega os recursos característicos da primeira e da segunda fase do modernismo para criar um romance sublime, utilizando-se da experimentação da linguagem e do regionalismo para tal. Segundo, devido aos diversos temas presentes acerca da condição humana, tratando de assuntos inerentes à existência da humanidade.
Por essas e outras é que O Grande Sertão: Veredas é um dos grandes clássicos da literatura brasileira e até mesmo da literatura mundial, devido toda singularidade e originalidade, além das temáticas filosóficas e poéticas sobre a vida e a própria existência humana, que tornam essa obra universal.
Até mais!